terça-feira, 22 de junho de 2021

13a Edição

 

    A   SENTINELA     

pede licença para a Educação!

 

 


 

 

EDUCAÇÃO PARA QUEM PRECISA
 
 
Aconteceu que certa feita A SENTINELA travou conversa com um pai de família que recebera intimação da Promotoria de Justiça. O cidadão baependiano, morador da zona rural, dissera que estava sendo acusado de faltar com a “paternidade responsável” por não providenciar que sua filha, adolescente de 15 para 16 anos, comparecesse às aulas numa escola da cidade. Por isso, acabou condenado em multa, convertida no pagamento de cesta básica. 
 
Reproduzido de memória, o diálogo se deu assim: 
 
– “Cumo é que é eu podia obrigá a minha fia, moça feita, a estudá se ela num queria? Inda mais se fecharam a escola rurar, a estrada tá esburacada e a kombi vai saculejano cheia de aluno, uns inté passano mar na viage?” 
 
– “Explicou isso ao Promotor e à Secretária de Educação?” 
 
- “Que nada, num adiantava... Esse povo num conhece Baependi não...” – Respondeu desalentado, enrolando o cigarro de palha. E, prosseguindo, concluiu: - “Acabei resorveno de outro jeito... Cumo a tar da murta me era custosa dimais, eu conversei com a minha fia, que já namorava com um rapaz, moço bão que só veno. Dei consentimento preles pra modi se casá logo e formá famía. No dia seguinte do casório eu fui no fóro e mostrei a certidão pro Promotor e acabô o probrema...”. 
 
O fato verídico acima relatado ilustra bem o desafio que confronta o Prefeito e a Secretária de Educação. 
 
Baependi figura como o 727º município, entre 853 no Estado, em taxa de escolarização de 6 a 14 anos de idade (https://cidades.ibge.gov.br/brasil/mg/baependi/panorama). Das várias razões que explicam essa vergonhosa estatística, a mais relevante é o abandono infraestrutural dos bairros rurais pelas Administrações anteriores, como A SENTINELA tem enfatizado em sua Coluna. 
 
Num contexto de pandemia que acarretou a suspensão das aulas presenciais, percebe-se o quanto a educação é, antes de tudo, “dever do Estado”. Cabe ao poder público prover condições materiais e logísticas para que as crianças e adolescentes em idade escolar, principalmente da zona rural, recebam conteúdo didático-pedagógico “on line”. Se e quando essas condições se verificarem é que se pode cogitar de corresponsabilidade dos pais e familiares. Mas não é destes a tarefa de promover a “inclusão digital de seus domicílios”. Tampouco devem interromper o “retiro de leite”, a “lida da criação” e a “lavoura” para buscarem “sinal de celular no pasto e topos de morro” a fim de que seus filhos e netos acessem plataformas educacionais na internet. Outras soluções se mostram mais criativas e razoáveis como o agendamento de acessos digitais individualizados ou em pequenos grupos aos alunos nas escolas rurais mediante a utilização de máscaras e observância de distanciamento, tudo sob monitoramento de agentes de ensino. 
 
Baependi, diferentemente de São Lourenço, por exemplo, tem uma grande e populosa zona rural. É preciso bom-senso para que, num momento de “exceção do ensino”, não se transfira a gestão do tema para o Conselho Tutelar e o Ministério Público. 
 
Em nenhum lugar a educação deve ser tratada como um “caso de polícia”. A política é que precisa ser educada para que o ensino cumpra a sua missão inclusiva. E a boa e reta pedagogia educacional não dispensa a cartilha da empatia, da cordialidade, da fraternidade e da bem-querença. 
 
Se Paulo Freire – ele mesmo! – nos ensinou que “a leitura do mundo precede a leitura da palavra”, Guimarães Rosa desvelou o mistério da linguagem, da fusão de saberes e do “sertão”, que somente o é por “ser tão” simples e inocente. “Palavra” é “pá-que-lavra”. O homem da “enxada” vale tanto quanto o da “caneta”. O “trabalhar” requer “trabaeza”. “Mire veja”.
 
 
    A   SENTINELA    

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Diga o que pensa, aceitamos de sugestões: